domingo, 9 de agosto de 2015

Introdução de Mary Shelley para Frankenstein


 “Os editores desta coleção de romances, ao escolherem Frankenstein para uma de suas séries, exprimiram o desejo de que eu lhes descrevesse a origem da história. Será um prazer para mim, pois assim darei uma resposta genérica à pergunta que tantas vezes me é dirigida: Como eu, na época uma menina, vim a conceber e a desenvolver uma ideia tão aterradora? É verdade que sou muito avessa a me exibir publicamente por escrito; mas como a minha narrativa só vai aparecer como suplemento a uma produção anterior, e se limitará apenas aos temas que tenham ligação com a minha autoria, não posso acusar-me de intrusão pessoal.

 Não é de admirar que, sendo filha de duas pessoas de distinta celebridade literária, muito cedo na vida eu tenha pensado em escrever. Quando criança, eu escrevinhava; e meu passatempo predileto, nas horas de recreio que me eram concedidas, era ‘escrever histórias’. Tinha, porém, um prazer maior do que aquele: a construção de castelos no ar -a disposição para sonhar acordada-, o acompanhamento de sequências de pensamentos que tinham como assunto a sucessão de incidentes imaginários. Os meus sonhos eram ao mesmo tempo mais fantásticos e agradáveis do que os meus textos. Nestes últimos, eu era uma boa imitadora –fazendo mais o que os outros haviam feito, do que registrando as sugestões do meu próprio espírito. O que eu escrevia era dedicado a pelo menos um outro olhar –o de meu companheiro e amigo de infância; eram meu refúgio quando me aborrecia –meu mais querido prazer quando livre. Quando menina, vivi principalmente no interior, e passei um tempo considerável na Escócia. Fiz visitas esporádicas às suas partes mais pinturescas; mas a minha residência habitual era no litoral nu e monótono do Tay, perto de Dundee. Chamo-o retrospectivamente de nu e monótono; pra mim, não era assim na época. Era o ninho de águia da liberdade e a região mais agradável onde podia, ignorada, comungar com as criaturas das minhas fantasias. Eu escrevia na época –mas no mais banal estilo. Foi embaixo das árvores dos jardins pertencentes à minha casa, nas encostas nuas das montanhas sem bosques das proximidades, que as minhas verdadeiras composições, os vôos de águia da minha imaginação, nasceram e se criaram. Não fazia de mim mesma a heroína de minhas histórias. A vida me parecia banal demais, no que se referia a mim. Não conseguia imaginar comigo mesma que aquelas angústias românticas ou aqueles acontecimentos maravilhosos pudessem um dia ser o meu quinhão; não me limitava, porém, a minha própria identidade, e podia povoar as horas com criações muito mais interessantes, pra mim, naquela idade, do que as minhas próprias sensações.

  Depois disso, a minha vida se tornou mais agitada, e a realidade ocupou o lugar da ficção. Meu marido, porém, estava desde o começo muito ansioso para que eu me provasse digna de meus pais e inscrevesse meu nome nas páginas da fama. Estava sempre a me encorajar a obter uma reputação literária, que até mesmo eu desejava na época, embora desde então eu tenha me tornado infinitamente indiferente a ela. Naquela época, ele queria que eu escrevesse, não tanto com a ideia que eu pudesse produzir algo digno de nota, mas para que ele pudesse avaliar quão promissor era o meu talento. Mas eu não fiz nada. As viagens e os trabalhos domésticos ocupavam o meu tempo; e o estudo, sob a forma de leitura ou de esforços por melhorar as minhas ideias na comunicação com a sua mente muito mais culta, era toda a atividade literária que recebia a minha atenção.

 No verão de 1816, visitamos a Suíça e fomos vizinhos de Lorde Byron. No começo, passávamos horas alegres sobre o lago ou passeando pelas margens; e Lorde Byron, que estava escrevendo o terceiro canto de Childe Harold, era o único de nós que registrava seu pensamento por escrito. Estes, conforme nos fazia ler, revestidos de todo o esplendor e harmonia da poesia, pareciam marcar com o selo divino as glórias do céu e da terra, cujas influências compartilhamos com ele.

 Mas aquele foi um verão chuvoso e pouco estimulante, e a chuva incessante muitas vezes nos trancava em casa durante dias. Alguns livros de histórias de fantasmas, traduzidas do alemão para o francês, caíram em nossas mãos. Havia a História do Amante Inconstante, que, quando pensava abraçar a noiva a quem tinha erguido um brinde, se viu nos braços do lívido fantasma daquela que abandonara. Havia a história do pecador fundador de sua raça, cujo miserável destino era dar o beijo da morte a todos os jovens de sua casa amaldiçoada, assim que alcançavam a idade prometida. Seu vulto gigantesco e sombrio, vestido, como o fantasma de Hamlet, de uma armadura completa, mas com a viseira erguida, foi visto à meia-noite, sob o luar intermitente, a avançar pela tenebrosa avenida. Perdia-se o vulto à sombra dos muros do castelo; mas logo um portão se abriu, ouviu-se um passo, a porta do quarto se abriu e ele avançou até a cama dos jovens em flor, embalados por um sono revigorante. Seu rosto exprimia uma dor eterna ao curvar-se e beijar a testa dos meninos, que a partir daquele momento murcharam como flores arrancadas do caule. Desde então, nunca mais vi aquelas histórias; mas suas situações estão tão vívidas em minha mente como se as tivesse lido ontem. Cada um de nós escreveria uma história de fantasmas, disse o Lorde Byron; e sua proposta foi aceita. Éramos quatro. O nobre autor começou uma história. Da qual publicou um fragmento ao fim do seu poema Mazeppa. Shelley, mais apto a dar corpo às idéias e aos sentimentos no esplendor de imagens brilhantes e na música do mais melodioso verso que adorna a nossa língua, do que a inventar as maquinações de uma história, deu início a uma narrativa baseada em experiências de sua infância. O pobre Polidori teve uma horrenda idéia sobre uma mulher com cabeça de caveira, que havia recebido essa punição por olhar pelo buraco da fechadura – para ver o que, não me lembro – algo sem dúvida é muito indecoroso e errado; mas quando ela se reduziu a uma condição pior do que o famoso Tom de Coventry, ele não sabia o que fazer com ela e foi obrigado a despachá-la para a tumba dos Capuletos, o único lugar adequado a ela. Os ilustres poetas também, entediados com a trivialidade da prosa, logo desistiram da tarefa que lhes era tão pouco congenial.

 Eu tratei de pensar numa história – Uma história rival das que nos instigaram àquela tarefa. Uma história que falasse dos misteriosos temores de nossa natureza e provocasse um horror eletrizante – Uma história para fazer o leitor ter medo de olhar ao seu redor, para enregelar o sangue e acelerar as batidas do coração. Se eu não conseguisse fazer isso, a minha história de terror não seria digna do nome. Pensei e meditei – Em vão. Sentia a nua incapacidade de invenção que é a maior miséria do autor, quando um estúpido Nada responde as ansiosas invocações. Você pensou em alguma história? Perguntavam-me a cada manhã, e a cada manhã eu era obrigada a responder com um torturante não.
 Tudo tem de ter um começo, como diria Sancho Pança; e esse começo deve estar ligado a algo que vem antes. Os hindus creem que o mundo esteja apoiando um elefante, e que esse elefante esteja em cima de uma tartaruga. Deve-se admitir humildemente que inventar não consiste em criar a partir do nada, mas a partir do caos;  os materiais devem ser dados antes: pode-se dar forma à escuridão, às substâncias informes, mas não se pode dar o ser à própria substância. Em todos os casos de descoberta e invenção, mesmo dos que pertencem à imaginação, devemos sempre lembrar a história de Colombo e o ovo. A invenção consiste na capacidade de aprender as possibilidades de um assunto e no poder de moldar e formar as ideias sugeridas por ele.

 Eram frequentes e longas as conversas entre Lorde Byron e Shelley, às quais eu era uma assídua mas quase silenciosa ouvinte. Numa delas, foram discutidas diversas doutrinas filosóficas, e entre outras coisas, a natureza do princípio da vida, e se haveria alguma possibilidade de que ele fosse descoberto e comunicado. Falaram das experiências do Dr. Darwin (não falo que o doutor realmente fez ou disse que fez, mas, o que está mais próximo do meu objeto, do que disseram que ele teria feito), que preservou um pedaço de macarrão no vidro, até que, por algum recurso extraordinário, ele começou a se mover com um movimento voluntário. Não que isso signifique dar vida. Talvez um cadáver pudesse ser reanimado; o galvanismo já dera indícios de uma coisa dessas: talvez as partes componentes de uma criatura pudessem ser fabricadas, reunidas e dotadas de calor vital.








 A conversa prolongou-se noite adentro e já passara de meia-noite quando nos retiramos para descansar. Quando pus a cabeça sobre o travesseiro, não dormi, nem se poderia dizer que pensei. A minha imaginação, liberta, tomou conta de mim e me guiou, oferecendo as sucessivas imagens que surgiram em minha mente com uma vivacidade muito além dos limites habituais do devaneio.  Vi – Com os olhos fechados, mas com uma nítida visão mental –, vi o pálido estudante de artes sacrílegas ajoelhado diante da coisa que fabricara. Vi a medonha imagem de um homem estendido que, em seguida, por efeito de um motor potente, dá sinais de vida e s e mexe com agitação, de maneira só meio vital. Aquilo era assustador; pois supremamente assustador seria o efeito de qualquer tentativa humana de simular o estupendo mecanismo do Criador do mundo. Seu bom êxito aterraria o artista; ele fugiria correndo do seu odioso artefato, horrorizado. Teria esperanças de que, entregue a si mesma, a leve centelha de vida que comunicara se extinguiria; que aquela coisa que recebera uma animação tão imperfeita voltaria à matéria morta; e ele poderia dormir na crença de que o silêncio da tumba extinguiria para sempre a efêmera existência do horrendo cadáver que ele chegara a considerar o berço da vida. Ele dorme; mas é despertado; abre os olhos; vê a coisa medonha em pé ao lado de sua cama, a abriras cortinas e a olhar para ele com os olhos amarelados, úmidos, mas inquiridores.
 Abri os meus com terror. A ideia tomou de tal forma conta da minha mente, que senti um arrepio de medo e eu quis trocar a fantasmagórica imagem de minha fantasia pelas realidades ao meu redor. Ainda as vejo; o próprio quarto, o parquet escuro, o luar que tentava penetrar pelas venezianas fechadas e a consciência que eu tinha de que o vítreo e ao altos e brancos Alpes estavam depois delas. Não consegui livrar-me com tanta facilidade do meu horrível fantasma; ele ainda me observava. Tinha de tentar pensar em alguma outra coisa. Recorri à minha história de terror – minha maçante e infeliz história de terror! Ah, seu eu pudesse inventar alguma que apavorasse o leitor como eu me apavorara aquela noite!

 Veloz como a lua e igualmente agradável foi a ideia que me ocorreu. Achei! O que me aterrorizou vai também aterrorizar os outros; e só preciso descrever o espectro que assombrava o meu travesseiro da meia-noite. No dia seguinte anunciei que tinha pensado numa história. Comecei aquele dia com as palavras ‘Foi numa monótona noite de Novembro’, fazendo apenas uma transcrição dos soturnos terrores do meu sonho desperto. Inicialmente, pensei em apenas algumas páginas – num conto; mas Shelley insistiu que eu desenvolvesse a idéia mais amplamente. Não devo por certo a meu marido a sugestão de nenhuma situação, tampouco de nenhuma constelação de sentimentos, e no entanto, se não fosse pelo incentivo dele, ela nunca teria ganhado a forma em que foi apresentado ao mundo. Devo excluir desta declaração o prefácio. Ao que me lembro, foi inteiramente escrito por ele. E agora, mais uma vez, convido a minha horrenda progênie a progredir e prosperar. Sou muito afeiçoada a ela, pois foi o fruto de dias felizes, quando a morte e a dor não passavam de palavras que não encontravam nenhum eco de verdade em meu coração. Suas diversas páginas falam de muitas caminhadas, muitos passeios e muitas conversas em que eu não estava sozinha; e meu companheiro era alguém que, neste mundo, nunca mais vou ver. Isso, porém, é só para mim; os leitores nada têm a ver com essas associações.

 Só direi mais algumas palavras sobre as alterações que fiz. Dizem respeito sobretudo ao estilo. Não mudei nenhuma parte da história nem introduzi nenhuma ideia ou situação novas. Corrigi a linguagem onde era tão insulsa que prejudicava o interesse da narrativa; e essas mudanças ocorrem principalmente no começo do primeiro volume. Em todo o romance, elas se limitam somente às partes que são meros anexos à história, deixando intactos o seu núcleo e a sua substância”

M.W.S. Londres, 15 de Outubro de 1831.

Fonte: Frankenstein ou O Prometeu Moderno
Editora: Martin Claret