segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Festa no Céu (2014)


Título Original: The book of life

Gênero: Animação, Aventura e Comédia

Diretor:  Jorge R. Gutiérrez

Roteiro: Jorge R. Gutiérrez e Douglas Langdale

Sinopse: "O jovem Manolo tem dúvidas entre cumprir as expectativas impostas por sua família de toureiros ou seguir a vontade de seu coração - que leva à música. Tentando se decidir, ele embarca em uma viagem por três diferentes mundos: o dos Vivos, o dos Esquecidos e o dos Eternizados. Ele encontra figuras marcantes e conta com o apoio do amigo Joaquin e da amada Maria."



Do contrário de animações como Megamente-DreamWorks e Carros-Pixar, em que encontramos um protagonista com valores errados e que no decorrer da história, consegue aprender o certo e mudar seu destino, em Festa no Céu, não é bem assim que acontece. Já fica claro no início, que Manolo será o personagem querido e que vai acabar conquistando o coração da mocinha Maria e seu amigo Joaquin representa o oposto, sendo usado como mal exemplo e passar mensagens positivas para os pequenos. Desse jeito, tudo fica muito previsível, até mesmo para as crianças.

Uma curiosidade pessoal: Xibalba me lembrou Jafar (Aladdin-Disney), principalmente na cena em que "se disfarça" de velhinho para iludir Joaquin, é possível também recordar um pouco a personalidade de Hades (Hércules-Disney). O design dos personagens, que apesar de terem aspectos cartunizados, tem um estilo muito exagerado. Porém, esses pequenos defeitos nos traços são compensados pela bela ambientação colorida relacionada ao Dia dos Mortos. Além do tema, a originalidade se encontra também na passagem da história para representação de bonecos...e para por aqui, infelizmente. As canções tem letras estranhas e parece não combinar muito, com exceção da cena do gigantesco touro. Festa no Céu marca bem mais pela experiência visual. O nome de Guillermo Del Toro foi muito citado para falar da produção, com todo merecimento, mas não considero um dos melhores desenho animados que já trabalhou. Seguindo esse estilo, voltado para o meio infantil, vale a pena conferir A Origem dos Guardiões, onde também produziu.
 
Avaliação:
Péssimo
Ruim
Regular
Bom
Ótimo

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Edgar Allan Poe


“Nascido em Boston (19 de Janeiro de 1809), teve sua infância marcada pela insegurança e amargura. Os pais (um casal de atores fracassados) morreram tuberculosos em 1811, com poucas semanas de intervalo. Seu irmão era tuberculoso também; a irmã, epiléptica. Após a morte da mãe, foi adotado por John Allan, um rico comerciante de Richmond, casado e sem filhos. De 1815 a 1820, o casal viajou com o garoto pela Escócia e Inglaterra. Durante quatro anos, Poe ficou interno num colégio próximo a Londres. Quando retornou a Richmond , o menino somava à sua bagagem uma educação clássica e grande habilidade na prática de vários esportes como a equitação, o boxe, a esgrima e a natação. Em sua memória viajavam as marcas da monótona paisagem londrina (com velhos castelos e casarões e as inevitáveis impressões de horror que elas lhe proporcionavam).

Em 1826, passou a frequentar a Universidade de Virgínia, onde estudou grego, latim, francês, espanhol e italiano. Entretanto, como desperdiçava seu dinheiro no jogo, seu tutor obrigou-o a deixar os estudos. Em Richmond, uma surpresa o esperava: sua namorada Elmira Royster estava noiva de outro. A desilusão amorosa levou-o para Boston, onde publicou um panfleto de poemas byronianos: Tarmelane and Other Poems (Tarmelão e Outros Poemas). Em Maio de mesmo ano, com a situação econômica precária, viu-se obrigado a alistar-se no Exército, com o nome de Edgar Allan Perry. A experiência foi proveitosa, pelo menos no sentido literário.

Em 1829 publicou um novo volume de poesias: Al Aaraaf, Tarmelane and Minor e Poems (Al Aaaraaf, Tarmelão e Poemas Menores). Mas, em Abril desse ano, foi localizado pelo tutor que o enviou para estudar em West Point. Em 1831, expulso da academia por ter faltado às aulas por mais de uma semana, passou a dedicar-se intensamente à literatura, numa vida nômade e inconstante. Decidido partir para Nova York, que desde o início do século XIX havia transformado no maior centro literário norte-americano.

Em 1831, publicou Poems (poemas), com várias obras onde apareciam as influências de Keats, Shelley e Coleridge. Em 1833, com Manuscrit Found in a Botle (Manuscrito Encontrado em uma garrafa), ganhou um prêmio de 50 dólares oferecido por um editor do Southern Literary Messenger, e tornou-se redator e crítico da publicação. Mas, como abusava da bebida, acabou sendo demitido. Nessa época casou-se com sua prima Virginia Clemm, de apenas treze anos de idade. Em 1938, Publicou The Narrative of Arthur Gordon Pym (A Narrativa de Arthur Gordon Pym), obra considerada como inspiradora do clássico Moby Dick, de Herman Melville. No ano seguinte, foi viver em Filadélfia, onde passou a editar a Burton´s Gentleman Magazine. Um contrato que o obrigava a determinada produção mensal estimulou-o a escrever William Wilson e The Fall of The House of Usher (A Queda da Casa de Usher), além de um novo volume de contos: Tales of Grotesque and Arabesque (Contos do Grotesco e do Arabesco).

Em 1840, demitiu-se da Burton´s. Mas no ano seguinte foi convidado a editar sua sucessora: A Graham´s Magazine, na qual publicou sua primeira obra detetivesca: The Muders in the Rue Morgue (Os crimes da Rua Morgue). Em 1943, o conto policial The Gold Bug (O Escaravelho de Ouro), publicado no jornal de Filadélfia, Deu-lhe dinheiro (um prêmio de 100 dólares), prestígio e publicidade. Em 1844, voltou para Nova York e escreveu Baloon Hoax (A Balela do Balão). Logo depois, tornou-se subeditor do Evening Mirror, onde publicaria seu poema The Raven (O Corvo). Isso significou mais prestígio e um novo emprego: Editor da Broadway Journal, um seminário de curta duração, onde publicou vários contos.

Em Janeiro de 1847, Vírginia morreu tuberculosa. Dois anos depois, Já com a saúde bastante abalada, em razão da bebida, Poe viajou para Richmond, onde ficou noivo de Elmira Royst, sua namorada da adolescência, que estava viúva. No fim de Setembro foi para Baltimore. Em um dia qualquer, encontrado inconsciente na rua, após uma bebedeira, foi levado para um hospital. Mas era tarde. No Dia 7 de Outubro de 1847, foi enterrado no cemitério presbiteriano de Westminster, em Baltimore.

A Base literária de toda obra em prosa de Poe apóia-se principalmente nas anomalias da natureza humana, levando ao leitor à evasão da realidade cotidiana: alucinações convincentes cuja lógica supera a do mundo normal; mentes inquietas e febris em corpos minados e convalescentes; percepções tão sensíveis que chegam a captar os sons e os mistérios que cercam o homem e o universo; personagens neuróticos, isolados do mundo e devotados a seus devaneios e fantasias; o duplo de cada homem; a histeria acima da vontade; a contradição sobre a lógica; etc. Poe criou regras próprias para seus contos: às unidades de tempo, lugar e ação, acrescentou a de efeito, aumentando o impacto sobre o leitor. A impressão de realismo dentro do irreal é acentuada pela utilização constante do eu (em sua maior parte, os contos são narrativos ou manuscritos dos personagens). Os cenários são brumosos, repletos de elementos que sugerem a morte e fatalidade. Os personagens, por outro lado, são extensões do próprio escritor: homens de nervos tensos, imaginação excitada, olhar agudo e implacável, e mulheres mórbidas, pálidas, doentes e de males estranhos. Embora seus poemas fossem tecnicamente perfeitos, compostos de ritmos harmoniosos e trabalhados, sua produção lírica foi reduzida. As poesias inspiradas nas mulheres são as melhores: To Helen (Para Helen), Annabel Lee (Eulália), To One in Paradise (À minha Mãe). E poesias como Lenore (Lenora), For Annie (Para Annie), Ulalume e a famosa The Raven (O Corvo). Além de criador da ficção-científica e do romance policial, Poe elevou os contos de terror à categoria literária.

    
 A Influência para outros Autores:


  A maioria dos grandes autores sofreram sua influência. Sua poesia, por exemplo, encontrou eco nos simbolistas Baudelaire, Mallarmé, Verlaine, Rimbaud, Valéry e até mesmo na técnica musical de Ravel, segundo confessou o próprio compositor. Os maiores contistas Franceses, como Gautier, merimée e Maupassant, também seguiram suas idéias. Na Inglaterra foi reconhecido como mestre por Swinburne e Oscar Wild; o Sherlock Holmes de Conan Doyle (1859-1930) foi calcado sobre Dupin de Poe; H. G. Wells segue Poe nos romances de ficção-científica. Na Bélgica, encontrou Rodenbach (1855-1898) e Materlink. Na América espanhola, marcou principalmente a poesia e a literatura fantástica. Ruben Dario, Amado Nervo, Julio Herrera (1875-1910), Leopoldo Lugones (1874-1938) adotaram algo de sua técnica lírica. Como pioneiro da literatura fantástica, influenciou Borges e Arreola (1918), além de Kafka, na Europa. No Brasil, sua influência pode ser detectada na obra do poeta Augusto dos Anjos. Considerado outro ‘maldito’ da literatura mundial e maior responsável pela divulgação da obra de Poe (com o qual se identificava), Charles Baudelaire dedicou-se durante alguns anos ao preparo e tradução dos contos de seu ‘irmão de alma’. Em uma carta enviada ao crítico de arte Théophile Thoré, Baudelaire explica: Sabe por que tão pacientemente traduzi Poe? Porque ele se parece comigo. A primeira vez que abri um livro seu, vi, com terror e fascinação, não apenas temas sonhados por mim, mas frases pensadas por mim, vinte anos antes.”


Fonte: Histórias Extraordinárias
Editora: Martin Claret


domingo, 9 de agosto de 2015

Introdução de Mary Shelley para Frankenstein


 “Os editores desta coleção de romances, ao escolherem Frankenstein para uma de suas séries, exprimiram o desejo de que eu lhes descrevesse a origem da história. Será um prazer para mim, pois assim darei uma resposta genérica à pergunta que tantas vezes me é dirigida: Como eu, na época uma menina, vim a conceber e a desenvolver uma ideia tão aterradora? É verdade que sou muito avessa a me exibir publicamente por escrito; mas como a minha narrativa só vai aparecer como suplemento a uma produção anterior, e se limitará apenas aos temas que tenham ligação com a minha autoria, não posso acusar-me de intrusão pessoal.

 Não é de admirar que, sendo filha de duas pessoas de distinta celebridade literária, muito cedo na vida eu tenha pensado em escrever. Quando criança, eu escrevinhava; e meu passatempo predileto, nas horas de recreio que me eram concedidas, era ‘escrever histórias’. Tinha, porém, um prazer maior do que aquele: a construção de castelos no ar -a disposição para sonhar acordada-, o acompanhamento de sequências de pensamentos que tinham como assunto a sucessão de incidentes imaginários. Os meus sonhos eram ao mesmo tempo mais fantásticos e agradáveis do que os meus textos. Nestes últimos, eu era uma boa imitadora –fazendo mais o que os outros haviam feito, do que registrando as sugestões do meu próprio espírito. O que eu escrevia era dedicado a pelo menos um outro olhar –o de meu companheiro e amigo de infância; eram meu refúgio quando me aborrecia –meu mais querido prazer quando livre. Quando menina, vivi principalmente no interior, e passei um tempo considerável na Escócia. Fiz visitas esporádicas às suas partes mais pinturescas; mas a minha residência habitual era no litoral nu e monótono do Tay, perto de Dundee. Chamo-o retrospectivamente de nu e monótono; pra mim, não era assim na época. Era o ninho de águia da liberdade e a região mais agradável onde podia, ignorada, comungar com as criaturas das minhas fantasias. Eu escrevia na época –mas no mais banal estilo. Foi embaixo das árvores dos jardins pertencentes à minha casa, nas encostas nuas das montanhas sem bosques das proximidades, que as minhas verdadeiras composições, os vôos de águia da minha imaginação, nasceram e se criaram. Não fazia de mim mesma a heroína de minhas histórias. A vida me parecia banal demais, no que se referia a mim. Não conseguia imaginar comigo mesma que aquelas angústias românticas ou aqueles acontecimentos maravilhosos pudessem um dia ser o meu quinhão; não me limitava, porém, a minha própria identidade, e podia povoar as horas com criações muito mais interessantes, pra mim, naquela idade, do que as minhas próprias sensações.

  Depois disso, a minha vida se tornou mais agitada, e a realidade ocupou o lugar da ficção. Meu marido, porém, estava desde o começo muito ansioso para que eu me provasse digna de meus pais e inscrevesse meu nome nas páginas da fama. Estava sempre a me encorajar a obter uma reputação literária, que até mesmo eu desejava na época, embora desde então eu tenha me tornado infinitamente indiferente a ela. Naquela época, ele queria que eu escrevesse, não tanto com a ideia que eu pudesse produzir algo digno de nota, mas para que ele pudesse avaliar quão promissor era o meu talento. Mas eu não fiz nada. As viagens e os trabalhos domésticos ocupavam o meu tempo; e o estudo, sob a forma de leitura ou de esforços por melhorar as minhas ideias na comunicação com a sua mente muito mais culta, era toda a atividade literária que recebia a minha atenção.

 No verão de 1816, visitamos a Suíça e fomos vizinhos de Lorde Byron. No começo, passávamos horas alegres sobre o lago ou passeando pelas margens; e Lorde Byron, que estava escrevendo o terceiro canto de Childe Harold, era o único de nós que registrava seu pensamento por escrito. Estes, conforme nos fazia ler, revestidos de todo o esplendor e harmonia da poesia, pareciam marcar com o selo divino as glórias do céu e da terra, cujas influências compartilhamos com ele.

 Mas aquele foi um verão chuvoso e pouco estimulante, e a chuva incessante muitas vezes nos trancava em casa durante dias. Alguns livros de histórias de fantasmas, traduzidas do alemão para o francês, caíram em nossas mãos. Havia a História do Amante Inconstante, que, quando pensava abraçar a noiva a quem tinha erguido um brinde, se viu nos braços do lívido fantasma daquela que abandonara. Havia a história do pecador fundador de sua raça, cujo miserável destino era dar o beijo da morte a todos os jovens de sua casa amaldiçoada, assim que alcançavam a idade prometida. Seu vulto gigantesco e sombrio, vestido, como o fantasma de Hamlet, de uma armadura completa, mas com a viseira erguida, foi visto à meia-noite, sob o luar intermitente, a avançar pela tenebrosa avenida. Perdia-se o vulto à sombra dos muros do castelo; mas logo um portão se abriu, ouviu-se um passo, a porta do quarto se abriu e ele avançou até a cama dos jovens em flor, embalados por um sono revigorante. Seu rosto exprimia uma dor eterna ao curvar-se e beijar a testa dos meninos, que a partir daquele momento murcharam como flores arrancadas do caule. Desde então, nunca mais vi aquelas histórias; mas suas situações estão tão vívidas em minha mente como se as tivesse lido ontem. Cada um de nós escreveria uma história de fantasmas, disse o Lorde Byron; e sua proposta foi aceita. Éramos quatro. O nobre autor começou uma história. Da qual publicou um fragmento ao fim do seu poema Mazeppa. Shelley, mais apto a dar corpo às idéias e aos sentimentos no esplendor de imagens brilhantes e na música do mais melodioso verso que adorna a nossa língua, do que a inventar as maquinações de uma história, deu início a uma narrativa baseada em experiências de sua infância. O pobre Polidori teve uma horrenda idéia sobre uma mulher com cabeça de caveira, que havia recebido essa punição por olhar pelo buraco da fechadura – para ver o que, não me lembro – algo sem dúvida é muito indecoroso e errado; mas quando ela se reduziu a uma condição pior do que o famoso Tom de Coventry, ele não sabia o que fazer com ela e foi obrigado a despachá-la para a tumba dos Capuletos, o único lugar adequado a ela. Os ilustres poetas também, entediados com a trivialidade da prosa, logo desistiram da tarefa que lhes era tão pouco congenial.

 Eu tratei de pensar numa história – Uma história rival das que nos instigaram àquela tarefa. Uma história que falasse dos misteriosos temores de nossa natureza e provocasse um horror eletrizante – Uma história para fazer o leitor ter medo de olhar ao seu redor, para enregelar o sangue e acelerar as batidas do coração. Se eu não conseguisse fazer isso, a minha história de terror não seria digna do nome. Pensei e meditei – Em vão. Sentia a nua incapacidade de invenção que é a maior miséria do autor, quando um estúpido Nada responde as ansiosas invocações. Você pensou em alguma história? Perguntavam-me a cada manhã, e a cada manhã eu era obrigada a responder com um torturante não.
 Tudo tem de ter um começo, como diria Sancho Pança; e esse começo deve estar ligado a algo que vem antes. Os hindus creem que o mundo esteja apoiando um elefante, e que esse elefante esteja em cima de uma tartaruga. Deve-se admitir humildemente que inventar não consiste em criar a partir do nada, mas a partir do caos;  os materiais devem ser dados antes: pode-se dar forma à escuridão, às substâncias informes, mas não se pode dar o ser à própria substância. Em todos os casos de descoberta e invenção, mesmo dos que pertencem à imaginação, devemos sempre lembrar a história de Colombo e o ovo. A invenção consiste na capacidade de aprender as possibilidades de um assunto e no poder de moldar e formar as ideias sugeridas por ele.

 Eram frequentes e longas as conversas entre Lorde Byron e Shelley, às quais eu era uma assídua mas quase silenciosa ouvinte. Numa delas, foram discutidas diversas doutrinas filosóficas, e entre outras coisas, a natureza do princípio da vida, e se haveria alguma possibilidade de que ele fosse descoberto e comunicado. Falaram das experiências do Dr. Darwin (não falo que o doutor realmente fez ou disse que fez, mas, o que está mais próximo do meu objeto, do que disseram que ele teria feito), que preservou um pedaço de macarrão no vidro, até que, por algum recurso extraordinário, ele começou a se mover com um movimento voluntário. Não que isso signifique dar vida. Talvez um cadáver pudesse ser reanimado; o galvanismo já dera indícios de uma coisa dessas: talvez as partes componentes de uma criatura pudessem ser fabricadas, reunidas e dotadas de calor vital.








 A conversa prolongou-se noite adentro e já passara de meia-noite quando nos retiramos para descansar. Quando pus a cabeça sobre o travesseiro, não dormi, nem se poderia dizer que pensei. A minha imaginação, liberta, tomou conta de mim e me guiou, oferecendo as sucessivas imagens que surgiram em minha mente com uma vivacidade muito além dos limites habituais do devaneio.  Vi – Com os olhos fechados, mas com uma nítida visão mental –, vi o pálido estudante de artes sacrílegas ajoelhado diante da coisa que fabricara. Vi a medonha imagem de um homem estendido que, em seguida, por efeito de um motor potente, dá sinais de vida e s e mexe com agitação, de maneira só meio vital. Aquilo era assustador; pois supremamente assustador seria o efeito de qualquer tentativa humana de simular o estupendo mecanismo do Criador do mundo. Seu bom êxito aterraria o artista; ele fugiria correndo do seu odioso artefato, horrorizado. Teria esperanças de que, entregue a si mesma, a leve centelha de vida que comunicara se extinguiria; que aquela coisa que recebera uma animação tão imperfeita voltaria à matéria morta; e ele poderia dormir na crença de que o silêncio da tumba extinguiria para sempre a efêmera existência do horrendo cadáver que ele chegara a considerar o berço da vida. Ele dorme; mas é despertado; abre os olhos; vê a coisa medonha em pé ao lado de sua cama, a abriras cortinas e a olhar para ele com os olhos amarelados, úmidos, mas inquiridores.
 Abri os meus com terror. A ideia tomou de tal forma conta da minha mente, que senti um arrepio de medo e eu quis trocar a fantasmagórica imagem de minha fantasia pelas realidades ao meu redor. Ainda as vejo; o próprio quarto, o parquet escuro, o luar que tentava penetrar pelas venezianas fechadas e a consciência que eu tinha de que o vítreo e ao altos e brancos Alpes estavam depois delas. Não consegui livrar-me com tanta facilidade do meu horrível fantasma; ele ainda me observava. Tinha de tentar pensar em alguma outra coisa. Recorri à minha história de terror – minha maçante e infeliz história de terror! Ah, seu eu pudesse inventar alguma que apavorasse o leitor como eu me apavorara aquela noite!

 Veloz como a lua e igualmente agradável foi a ideia que me ocorreu. Achei! O que me aterrorizou vai também aterrorizar os outros; e só preciso descrever o espectro que assombrava o meu travesseiro da meia-noite. No dia seguinte anunciei que tinha pensado numa história. Comecei aquele dia com as palavras ‘Foi numa monótona noite de Novembro’, fazendo apenas uma transcrição dos soturnos terrores do meu sonho desperto. Inicialmente, pensei em apenas algumas páginas – num conto; mas Shelley insistiu que eu desenvolvesse a idéia mais amplamente. Não devo por certo a meu marido a sugestão de nenhuma situação, tampouco de nenhuma constelação de sentimentos, e no entanto, se não fosse pelo incentivo dele, ela nunca teria ganhado a forma em que foi apresentado ao mundo. Devo excluir desta declaração o prefácio. Ao que me lembro, foi inteiramente escrito por ele. E agora, mais uma vez, convido a minha horrenda progênie a progredir e prosperar. Sou muito afeiçoada a ela, pois foi o fruto de dias felizes, quando a morte e a dor não passavam de palavras que não encontravam nenhum eco de verdade em meu coração. Suas diversas páginas falam de muitas caminhadas, muitos passeios e muitas conversas em que eu não estava sozinha; e meu companheiro era alguém que, neste mundo, nunca mais vou ver. Isso, porém, é só para mim; os leitores nada têm a ver com essas associações.

 Só direi mais algumas palavras sobre as alterações que fiz. Dizem respeito sobretudo ao estilo. Não mudei nenhuma parte da história nem introduzi nenhuma ideia ou situação novas. Corrigi a linguagem onde era tão insulsa que prejudicava o interesse da narrativa; e essas mudanças ocorrem principalmente no começo do primeiro volume. Em todo o romance, elas se limitam somente às partes que são meros anexos à história, deixando intactos o seu núcleo e a sua substância”

M.W.S. Londres, 15 de Outubro de 1831.

Fonte: Frankenstein ou O Prometeu Moderno
Editora: Martin Claret





sábado, 8 de agosto de 2015

Cada um na Sua Casa (2015)



Título Original: Home

Gênero:  Animação, Aventura e Comédia.

Diretor: Tim Jonhson

Roteiro: Tom J. Astle, Matt Ember e Adam Rex (livro)

Sinopse: ''Quando a Terra é invadida pelos confiantes Boov - uma raça alienígena em busca de um novo lar - todos os humanos são prontamente deslocados, enquanto os Boov se ocupam de organizar o planeta. Porém uma esperta garota chamada Tip (Rihanna) consegue evitar ser capturada e acidentalmente transforma-se em cúmplice de um Boov exilado chamado Oh (Jim Parsons)."




Quando assisti o trailer, não me empolgou muito. Mas como a DreamWorks já me deu boas surpresas em Como Treinar Seu Dragão e Os Croods, resolvi arriscar...e não me arrependi! Aqui o enredo segue com características diferentes dos outros desenhos animados do estúdio, onde geralmente trazem um humor que apenas adultos entendem, estilo Formiguinha Z (que Tim Johnson também dirige), Quadrilogia Shrek e Monstros vs Aliens, ou até cenas parodiando filmes famosos. De um tempo pra cá, nota-se que a DW se rendeu ao público infantil, e ainda assim, conseguem passar mensagens importantes para os pequenos e entreter os mais grandes.

É o caso de Cada Um na Sua Casa. Que possui traços típicos de seus longas animados mais famosos, parecendo que os atores se transformaram em cartoons: Steve Martin é a voz original do egocêntrico e medroso capitão Smek (lembra bastante o Rei Julian de Madagascar), Jim Parsons empresta sua voz para o solitário Oh, um Boov que não consegue fazer amigos em seu planeta e tudo complica quando chega na terra. Sua personalidade lembra seu personagem na série Big Bang-A Teoria. Já a cantora Rihanna faz a voz original de Tip, uma garotinha igualmente solitária.

Daí imaginamos uma conexão fácil entre o ET e a menina, mas não é tão simples como aparenta. O enredo não parece facilitar a amizade que o telespectador já prevê, e quando você menos espera, vai tudo acontecendo naturalmente, no seu devido tempo. A comédia é bastante explorada de um jeito mais ingênuo, e tudo é mostrado rápido demais. Entretanto, o decorrer reserva surpresas agradáveis até chegar ao inesperado final. É um desenho animado que apesar de ser infantil demais, consegue passar humanidade de uma maneira simples.

Avaliação:
Péssimo
Ruim
Regular
Bom
Ótimo

domingo, 2 de agosto de 2015

Charles Addams



 "Charles Samuel Addams (Westfield, Nova Jérsei, 7 de Janeiro de 1912 — Nova Iorque, 29 de Setembro de 1988) foi um cartunista estadunidense. Ficou célebre ao criar quadrinhos com personagens que habitavam um mundo particular, com criaturas ao estilo Frankenstein. Suas histórias foram adaptadas para a TV com o nome de 'A Família Addams'.

Addams trabalhou no departamento de arte de uma revista criminalista e sua função era pintar cruzes pretas nas fotografias indicando o lugar onde havia sido encontrado o cadáver. Seu humor mórbido floresceu na revista norte-americana The New Yorker, em 1936 , e a sua produção era equivalente à de James Thurber e Peter Arno, com quem trabalhava." [wikipédia]